Liège Schneider: a menina-prodígio de Alegrete

Liège Schneider em seu local de trabalho, sua sala na Musiartes. FOTO: meus arquivos pessoais (01 de março de 2019).

Iniciando a Série Educadoras Musicais Inspiradoras vamos conhecer Liège Schneider.

Liège Schneider Pereira é musicista e educadora musical que apresenta uma história de amor com o ensino de música. O objetivo desta matéria é homenagear e divulgar o trabalho realizado por essa mulher musicista, educadora musical, arranjadora, empreendedora, personalidade fundamental para conhecer uma parte da trajetória do ensino de música no estado do Rio Grande do Sul. Especialmente, nas cidades de Alegrete e Santa Maria. Também para conhecer um pedacinho da trajetória musical desta profissional da música que iniciou sua carreira muito cedo, carregando consigo o adjetivo “prodígio”acompanhado de seu nome.

Este texto é uma adaptação do artigo “A Musiartes é a menina dos meus olhos” publicado no jornal Musinews número 001 do mês de novembro de 2018, jornal da escola Musiartes de minha autoria  em conjunto de mais dois queridos autores: Vanessa da Silva e Rafael Holzschuh Araujo.

O conteúdo deste artigo está organizado em cinco etapas: (1) Breve biografia; (2) Formação musical de Liège; (3) Formação docente; (4) Criação da Musiartes; (5) Mensagem aos professores de música em início de carreira. Desejo uma boa leitura!

Quem é Liège Schneider?

Foto: Arquivo pessoal de Liège Schneider.

Liège Schneider Pereira é natural de Alegrete, nasceu em 28 de Abril. Mãe de quatro filhos, viuvou-se, recentemente, de um casamento de 43 anos. Além de musicista, educadora musical e arranjadora, fundou o Centro de Educação Musical Musiartes em 1991 na cidade de Santa Maria, com o apoio de sua família. Já orientou e preparou celebridades como Guilherme Porto e Léo Pain para os programas  “The Voice Kids” e “The Voice”, respectivamente, da rede Globo de televisão. Também teve como aluna a cantora Paola Matos que já foi premiada no Rio de Janeiro e lançou, recentemente, seu segundo álbum “Cor”. Além da participação na formação musical de diferentes gerações de gaúchos da região central do estado do Rio Grande do Sul. É referência para músicos da região e frequentemente convidada para participar como jurada de concursos musicais. Atua como professora de teclado, piano e técnica vocal na sua escola Musiartes e tem uma carga horária de trabalho muito intensa, com sua agenda lotada.

Léo Pain, orientado musicalmente por Liège. FOTO: site de divulgação
Paola Matos, uma das alunas de Liège Schneider que seguiu a carreira musical profissionalmente. FOTO: site de divulgação

Como foi construída a Formação Musical de Liège Schneider?

Liège Schneider criança tocando acordeon acompanhada pelo pai Eugênio Schneider. FOTO: Arquivo pessoal de Liège.

Primogênita do maestro Eugênio Schneider (1927-2011), Liège Schneider cresceu como menina-prodígio, desenvolveu habilidades musicais desde muito cedo. Desde a infância acompanhava o pai em sua rotina musical de trabalho e aprendeu muito com ele. Aos dois anos de idade tocava uma pequena gaita em apresentações com seu pai. Também participava das apresentações dos alunos de Eugênio Schneider cantando em cima do piano.

Eugênio Schneider tinha uma rotina de trabalho intensa. Orientava grupos musicais como bandas e corais. Além disso ministrava aulas de músicas em suas escolas.

Liège aos 5 anos de idade tocava gaita e piano. Também nesta idade já identificava as notas musicais de ouvido. Liège cresceu dentro das escolas de música de seu pai. Percorreu o Estado do Rio grande do Sul e a Argentina realizando shows como menina-prodígio tocando gaita e pianos com um instrumento em cada mão. Também realizava apresentações com suas irmãs, o trio Chapeuzinho Vermelho, ela tocando teclado eletrônico (conhecido na época como órgão) e as irmãs tocavam bateria e marimba.

Formação musical de Liège na infância com seu pai Eugênio Schneider. FOTO: Arquivo pessoal de Liège.

Liège: – Quando eu tinha 12 anos a gente veio morar em Santa Maria e ele abriu a escola aqui, fez banda, fez coral dos cantores de Santa Maria, fez banda na universidade e eu sempre o acompanhei.

Então fui obrigada a aprender a ler [partituras], escrever eu já escrevia, mas eu não lia com fluência. Eu aprendi porque eu dava aula para alunos de outros conservatórios que liam muito bem e isso me motivou a ler mais.

Liège Schneider frequentou o curso de Educação Artística da UFSM, na época um curso voltado a formação de professores polivalentes nas áreas das artes. Ou seja, os professores desenvolviam formação para ministrar aulas de teatro, música e artes plásticas. Liège queria atuar, exclusivamente, como professora de música. O curso de Bacharelado em Música também não servia, pois não queria se tornar concertista.

Na época, para entrar no curso de Educação Artística da UFSM não havia prova específica de conhecimentos musicais. As aulas específicas de música eram direcionadas à pessoas sem nenhum conhecimento musical, o que era, consequentemente, muito superficiais para o conhecimento de Liège. Foi então que Liège foi encaminhada a realizar aulas de teoria e percepção do curso de bacharelado em Música com a professora Ligia Indrusiak. Uma professora muito exigente que reconheceu e valorizou o conhecimento musical de Liège.

Liège abandonou o curso de graduação pelo curso não corresponder às suas expectativas na época.  E, ainda, em função de suas necessárias atividades como empreendedora, pois já havia fundado a Musiartes.

Liège:  – Sobre a minha formação, eu entrei em Educação Artística na UFSM, mas era um curso que não me interessava muito, porque era tudo misturado. Não existia licenciatura em música, só bacharelado em instrumentos e eu não queria ser concertista. A Educação Artística era uma mistura de tudo e não aprendia nada, na verdade. A minha opção era música, mas o que eu menos tinha aula era de música, até passei a parte de teoria e percepção para o bacharelado, porque era muito fraco e eu já sabia, eu já tinha uma “Faculdade da Vida” com meu pai. No fim, eu desisti do curso e não quis mais.

Como iniciou a docência em música?

       

Liège adolescente usando fones de ouvido. Arquivo pessoal de Liège.

Liège:  – Então, no fim, eu aprendi tudo com o meu pai. Eu fui aprendendo a dar aula como ele dava, também. Meu pai queria que eu fosse pianista, mas eu nunca quis ser instrumentista, eu gosto é de dar aula. 

Liège Schneider aprendeu a atividade docente com seu pai, buscou formação acadêmica, mas frustrou-se com a proposta da época e desistiu. Queria ser professora e não concertista. Começou a trabalhar com seu pai aos 14 anos de idade na Escola Livre Musical Eugênio Schneider, escola de seu pai em Santa Maria.  Depois seguiu seu caminho sozinha. Já era casada desde os 18 anos de idade, e já era mãe quando começou a atender alunos em sua casa no ano 1989. Rapidamente, lotou seus horários de atendimento ensinando teclado. A demanda era muito grande e os alunos começaram a pedir aulas de outros instrumentos, como violão e guitarra. Ela resolveu alugar uma sala e contratar professores de outros instrumentos.

Liège tocando teclado (à esquerda) com as irmãs. FOTO: Arquivo pessoal de Liège.

Musiartes: “a menina dos meus olhos”

Liège: – Então eu comecei a dar aula no quarto dos meus filhos dentro do meu apartamento pra poder atender a esses alunos. Quando eu percebi, eu estava dando aula o dia inteiro, por isso eu aluguei uma peça para aulas de teclado, isso foi em 89 ou 90. De repente eu estava com 40 alunos, sozinha, eu trabalhava das 8 h ao meio dia e das 13:30 até às 20:30 ou 21:30. Sozinha, eu atendia todos os horários de teclado, apenas teclado. Resumindo, começou assim: um aluno de teclado me perguntou se não tinha aulas de violão ou guitarra. A partir daí eu comecei a contratar profissionais que davam aula de violão e guitarra e quando eu me dei conta já estava com tudo. Foi assim que surgiu a Musiartes.

Em 1991 Liège inicia o seu próprio empreendimento auxiliada pelos filhos e cria o Centro de Educação Musical Musiartes. Como Liège nos conta, a Musiartes nasceu como resultado de uma demanda da cidade de Santa Maria. Nessa trajetória, abriu uma filial em Alegrete, que durou 5 anos, período em que retornou à cidade natal por motivos familiares.

Liège: – A Musiartes é “a menina dos meus olhos”, minha filha mais nova e minha paixão. […] Eu acho que eu morro se a Musiartes fechar. E não é por ser dona da escola, é pelo trabalho que eu gosto. Eu fico feliz quando têm pessoas que vestem a camiseta e assumem a mesma posição que eu assumo aqui dentro da escola: de lutar. […] E a minha preocupação é que sigam, por isso eu quero profissionais que gostem de dar aula, eu quero gente que dê aula por gostar, não é só no dinheiro que tem que pensar. 

Como empreendedora conta que já investiu muito dinheiro na Musiartes e o faria, novamente, se necessário. Liège conta que já sofreu muito com as crises que a sua escola enfrentou, mas que sempre teve um pensamento positivo e que foram crises passageiras. A escola completou 27 anos em outubro de 2018. Passou por uma reforma, recentemente, e atende cerca de 200 alunos e 18 professores de diferentes instrumentos musicais. A escola realiza eventos como o Musishow, Improviso, Samba e Bossa Nova e Especial Rock. E está localizada no centro de Santa Maria em um belo prédio histórico na Rua Dr. Astrogildo de Azevedo n. 91.

Mensagem aos professores de música iniciantes

Liège deixa um conselho aos jovens educadores e educadoras musicais:

Liège no Musishow. Arquivo da escola Musiartes.

Liège: – O conselho é: perceber que cada aluno é único, então não pode ser uma coisa igual para todos. Explora. Explora a capacidade de cada um. […] Tu tens que te dedicar, tu tens que te doar, tu tens que procurar ensinar aquele que tem maior dificuldade, é assim que vocês vão pra frente na vida. Pra ser reconhecido demora, não pensem que é fácil, mas um dia vem se tu fizer o teu trabalho com amor, com carinho e com dedicação. Então eu quero deixar pessoas assim, sabe? Que se dediquem e que querem ir para frente.

 

 Você conhece outra menina-prodígio? Gostou do artigo? Tem mais informações? Por favor, entre em contato.

E-mail: contato@uterus.com.br

Ou deixe um comentário baixo: 

Para saber mais:

https://www.musiartes.com.br/

https://diariosm.com.br/cultura/especialistas-fazem-suas-apostas-sobre-l%C3%A9o-pain-na-final-do-the-voice-1.2097351?l=?l=

https://diariosm.com.br/cultura/os-talentos-de-santa-maria-que-j%C3%A1-se-aventuraram-em-competi%C3%A7%C3%B5es-da-televis%C3%A3o-1.2090157

http://abemeducacaomusical.com.br/conferencias/index.php/sl2018/regsl/paper/view/3056/1645

https://repositorio.ufsm.br/handle/1/15161

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Comentários

  1. Eurico says:

    Lindo a história de minha conterrânea.- Me chamo Eurico sou Alegretense tbm e sou produtor musical.

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